Imperativa
Fazer a mala
Por associação
de profundis amamus
às onze
fumaste um cigarro
encontrei-te sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal
abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
Mário Cesariny, Pena Capital.
Lugares comuns
Excerto de a história de elia de Mircea, uma das "Histórias Falsas" de Gonçalo M. Tavares (Ed. Campo da Literatura)
Em "A Moral do Vento, Ensaio sobre o corpo em Gonçalo M. Tavares" (Ed. Caminho), o autor do ensaio , Pedro Eiras, lembra Freud e a amputação feita castração no plano onírico. Se para Freud a amputação sonhada equivalia sempre a castração, ali onde era dedo dever-se-ia ler pénis. O dedo de Elia de Mircea (assim nomeado naquela história falsa, mascarando o nome verdadeiro do historiador, filósofo e teólogo romeno Mircea Eliade) teria sido cortado para que no seu lugar crescesse um órgão verdadeiro. O mestre será, assim, uma prótese da qual o discipulo, uma vez terminados os ensinamentos, se liberta.
Sobre escrever, e, em particular, sobre escrever poesia, li, algures no infinito virtual sem que tivesse memorizado o sítio, o conselho de um professor aos seus alunos. Aconselhava, peremptório, que se evitassem palavras como amor, tristeza, raiva, dor. No fundo, os lugares comuns. Explicava que a palavra amor, num bom poema, deve ser substituída por uma metáfora capaz e original, que evoque os cinco sentidos e os deixe viajar através das linhas. Viajar através das linhas, apercebo-me enquanto escrevo, terá qualquer coisa de metafórico, mas não lhe reputo capacidade e originalidade. Será difícil, concluía o professor, mesmo para quem trabalhe (com) as palavras há largos anos. Pensar que todos os poemas falam de amor é como pensar que todos os poetas estão mortos porque hoje já ninguém escreve poesia. Mas a poesia não está morta. Queria eu dizer com isto que tal como Elia de Mircea ficou sem o dedo para que pudesse filosofar de forma original, (ou pensar por si), também os poetas, antes de mais, se se querem capazes e originais, devem amputar, pelo menos inicialmente, a palavra amor, aqui feita prótese, e evitar o lugar comum de estarem mortos.
Sing Me Spanish Techno
Sing me Spanisch Techno, The New Pornographers, do excelente álbum Twin Cinema.
Cepticismos
"A smirking devil annoys me in beautiful English"
idolatrias (ii)
Idolatrias (i)
Auto-retrato de Egon Schiele
“In their leanness, Schiele's figures might be said to resemble those of Picasso's Blue Period. But Picasso's figures are gaunt because they are poor and needy, whereas Schiele's have no thought for eating, as their only hunger is for sex. They are like illustrations of a thesis of Sigmund Freud, Schiele's fellow Viennese, that human reality is essentially sexual. What I mean to say is that there is no art-historical explanation of Schiele's vision. Expressionism was certainly in the air in Mitteleuropa in those years. But his drawings look like nothing one would see by artists who belong to movements like Die Brücke ("The Bridge") or Der Blaue Reiter ("The Blue Rider"). The German Expressionists used heavy black outlines and were inspired by a vision of primitivism. My own view, hardly inspired, is that Schiele expressed what Freud describes in his central thesis about human nature and conduct--that from infancy on, sex relentlessly holds us in its grip.”
E se um hippie logo pela manhã
Matar o anjo
Os Amantes sem Dinheiro
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
cinema sem cinema (os amantes regulares)
Repulsa, caos e desobediência
David Cronenberg realizou a Mosca. Citação cinematográfica da Metamorfose de Kafka mas ainda mais nojento. Quando Geena Davis chega ao laboratório e Goldblum pavoneia a recém-adquirida natureza passeando pelo tecto, é possível evocar na perfeição a passagem da Metarmofose em que Gregor descobre que a sua deformidade lhe permite passear pelo tecto do quarto onde se viu forçado a esconder-se. Um filme nojento não é necessariamente mau. É um filme que, embora provoque um sentimento que se situa vulgarmente na categoria dos grosseiros, tendo o potencial para provocar repulsa, tem aí, enquanto exercício artistíco, a sua finalidade. As cicatrizes e ferros nas pernas de Patricia Arquette forçando a entrada num carro de luxo no "Crash" possuem a mesma qualidade repulsiva. Quando o personagem de Goldblum se vai desintegrando e deixando cair pedaços de orelha e dentes que colecciona como troféus da sua humanidade perdida, mesmo os estômagos mais insensíveis se ressentem. A repulsa nem sempre é má.
O bom caos
Jeff Goldblum tem um dom. O de imprimir a todas as banalidades em que se mete uma nota de credibilidade. Ainda que não tenha lido um único livro dito científico em toda a sua vida, tem uma expressão de credibilidade científica à mistura com uma irresístivel irreverência que o tornam ideal para encarnar o génio porreiraço. Simplisticamente, tem um ar inteligente. Qualquer coisa parecida com o cool geek dos Kings of Convenience. Facto é que as únicas cenas realmente suportáveis do Jurassic Park eram aquelas em que ele falava da teoria do caos e do efeito do bater das asas da borboleta em Pequim, e, em jeito de flirt, deixava as gotas de água escorregar pela mão da Laura Dern para lhe provar que elas tomariam sempre um sentido diferente mesmo que partindo do mesmo ponto. A imprevisibilidade como consequência das imperfeições. O caos nem sempre é mau.
Kafka pediu ao seu testamentário, pouco antes de morrer, que queimasse todos os seus manuscristos. Considerando que boa parte das suas obras são póstumas, beneficiou ele, e beneficiámos nós, da desobediência. A desobediência nem sempre é má.