Escreve. Escreve. É uma ordem. Toda a vontade do mundo, querer não é poder, quem diz isso é idiota ou nunca quis nada que não fosse imediato. Sofres de um problema com a autoridade. Desautorizas até a tua vontade. O curioso é que o filme sobre quem não consegue escrever foi escrito por quem não conseguia escrever. Catarse. Podes sempre escrever sobre o facto de não conseguires escrever. Gore Vidal, o americano anti-americano, autor de livros longuíssimos e no limiar do maçador, prolixo e não parecendo sofrer de bloqueios, disse: Write something even if it’s just a suicide note. Escreve livros longuíssimos e diz coisas destas.
Po shfaqen postimet me emërtimin ruas mais estreitas. Shfaq të gjitha postimet
Po shfaqen postimet me emërtimin ruas mais estreitas. Shfaq të gjitha postimet
John Malkovich as Himself
Há um edifício de escritórios em Lisboa em que a saída é no oitavo andar. Há um declive, uma discrepância no solo sobre o qual foi construído que produz a anómala circunstância de se sair sempre no oitavo andar. Sair no oitavo andar parece um pouco ousado. Disse-lhes, uma vez, que o escritório deles me faz lembrar o filme que se passa na cabeça de alguém que é actor no filme e fora do filme. O absurdo a que pode chegar o ego quando se é actor, extraordinário, e se entra num filme em cujos créditos se lê John Malkovich as Himself, não é de todo desprezível. Há egos que não cabem no mundo, e nunca apareceram num filme “as themselves”. Se alguém quisesse entrar na minha cabeça eu diria que não. Por isso é que as pessoas que entram na minha cabeça o fazem sem pedir autorização. Quando entro na cabeça de alguém entro de mansinho, não peço porque não gosto de ouvir não. Faço esse tipo. Ninguém me pode dizer que não.
“Ir em frente. Dizer que é ir. Dizer que é em frente.” *
Acordar assim, sufocado, e atribuir esse ardor de alma aos vinte e oito graus matinais de temperatura é hipocrisia. Bem sabes que sufocas por dentro. O tempo não pode ser o culpado de tudo. Se chove, dizes-te de mau humor porque as calças e os sapatos chegaram molhados à porta do escritório, quando se te enruga a testa mesmo enquanto dormes, quente, debaixo dos cobertores. Se sais para a rua, e não consegues respirar, não te desculpes com o calor por teres ignorado ostensivamente, como todos os dias, o homem que te pede sempre dinheiro no mesmo sítio e à mesma hora. E se, por uma vez, parasses? Não te desculpes com o calor, com o cansaço à saída da praia, com o trânsito, quando presenteias a criança com um tabefe por ela ter tropeçado. Se ela cai e se magoa, porque lhe bates? Quem te vê, quase pensa que lhe bates por existir. O tempo não pode ser o culpado de tudo. Já estavas assim antes.
*“O Inominável”, Samuel Beckett
Usurpação de poderes
E leu na nota número 10, a cento e vinte páginas do final do livro, que era curioso que o destino de uma figura histórica, citada pelo autor, se confundisse com aquele que era o destino de uma das personagens principais: a morte. Suspensa que estava nas elucubrações daquela que era a heroína indiscutível e, desde o início, a sua Afinidade Electiva, abandonou, revoltada com as indiscrições do tradutor e autor da nota número 10, o livro a pior sorte na prateleira. Alguém escreveu que o trabalho dos tradutores se assemelha ao das mulheres que fazem tapetes de Arraiolos que, cuidadosas, olham para o avesso do tapete e lhe descobrem as imperfeições que a parte visível não revela. A tradução será assim, coisa cuidada e atenta mesmo ao avesso por natureza sempre a salvo dos olhares. Ora, a cento e vinte páginas do final do livro quis o autor que a heroína ainda respirasse e suspirasse pelas suas afinidades electivas. O tradutor, extrapolando poderes, ceifou-a prematuramente. Se traduções há que são infelizes, aquelas que tiram a quem lê a esperança num final feliz, assim a negrito numa qualquer nota número 10, são simplesmente cruéis.
“Mil escolas de filosofia e ainda ninguém descobriu o segredo das ancas.” *
Há pessoas que não dançam em festas. Não conhecem o segredo das ancas. Aquele. O da dança. Não o outro. Não são a mesma coisa? Se não estiveres a dançar enquanto todos dançam, repararás, quando diante de um grupo de medianos e ocasionais dançarinos, que cada um se mexe a um ritmo diferente. Dificilmente o ritmo da música. Alguns procuram nos outros o ritmo, buscam um movimento que possam copiar sem acrobacias que lhes ponham em risco os membros e a face, ou tentam acompanhar, quando a pares, o parceiro que olha para o vazio. Olha-me nos olhos enquanto danças. Outros mexem-se daquela forma que dificilmente se assemelhará a qualquer movimento catalogável num tipo de dança, e ocupam o solidário lugar na pista reservado aos que apenas fingem dançar. Às vezes, ninguém dança, realmente.
Há pessoas que falam muito alto. Não querem ser ouvidas. Querem ser vistas. Se alguém quiser ser ouvido diz alguma coisa interessante, não fala alto. As pessoas que falam muito alto são sempre vistas. Se estiveres de costas, enquanto alguém fala muito alto, não atentas no que ela diz, procuras uma oportunidade, para, discretamente, virares a cabeça e veres quem fala assim, tão mais alto que os outros. Há pessoas que falam muito baixo. Não querem ser vistas.
Há pessoas que falam muito alto. Não querem ser ouvidas. Querem ser vistas. Se alguém quiser ser ouvido diz alguma coisa interessante, não fala alto. As pessoas que falam muito alto são sempre vistas. Se estiveres de costas, enquanto alguém fala muito alto, não atentas no que ela diz, procuras uma oportunidade, para, discretamente, virares a cabeça e veres quem fala assim, tão mais alto que os outros. Há pessoas que falam muito baixo. Não querem ser vistas.
*Gonçalo M. Tavares
Fazer a mala
A determinada altura do filme "as good as it gets" Jack Nicholson gaba a mala bem feita de vizinho gay que tem por passatempo detestar. Pode ser gay observa com admiração, e em evidente conflito com a sua homofobia militante, mas sabe fazer uma mala. As meias apresentavam-se dobradas, as t-shirts engomadas, os cintos cuidadosamente enrolados, os calções convivendo respeitosamente com outros calções, tudo num espaço rectangular onde reinava a harmonia. Sempre que tenho de fazer uma mala para mais de uma semana lembro-me da mala perfeita do Greg Kinnear. Fazer bem uma mala implica várias coisas. Desde logo, não levar coisas em excesso. E, claro, dobrar. Dobrar sempre. Categorizar e organizar sempre. Jamais arrumarei uma mala impecável, pela mesma razão que nunca terei os meus cds arrumados por ordem de género ou até alfabética, a minha secretária sem um único papel supérfluo, a minha mesa de cabeceira sem livros empilhados, ou o meu quarto sem jornais de há três dias. Não sou esse tipo de pessoa.
Por associação
A dificuldade em escrever lembra-me o Inadaptado do Kaufman. Sempre gostei de orquídeas. Há orquídeas a mais naquele filme. Meryl Streep, por outro lado, nunca é demais. Há qualquer coisa de profundamente perturbador no olhar do Nick Cage. Lembra-me Coppola. Fez filmes com ele, andou no liceu com os filhos dele. Coppola lembra-me Sofia. Sofia lembra-me Bill Murray. Que me lembra Seu Jorge a cantar as músicas do David Bowie em inglês traduzido e tom mais que perfeito. Owen Wilson. Provavelmente o loiro mais feio da história de Hollywood. The Royal Tennenbauns. Bill Murray lembra-me Cousteau e Angélica Houston. A família Adams. Christina Ricci no Monster. A má da fita era ela. Alienish look testa gigantesca. Beleza, contudo, indiscutível. Cristina Riccie lembra-me aquele filme do Woody Allen que não é o melhor de todos com aquele rapaz que deu um uso original às tartes. Annie Hall. Psicanálise. Freud. Sexo. E a cidade. Mr. Big. Afinal, era um John qualquer.
Lugares comuns
"Uma noite, porém, a intensidade que ensina entrou no sonho. Viu-se num mosteiro, submisso. Imitava até ao ponto de repetir o gesto de levantar o dedo indicador da mão direita, exactamente como customava fazer o mestre. No sonho, o mestre perguntou - por que levantas o dedo indicador? E ele, depois de repetir o gesto, respondeu: porque quero aprender consigo. O momento que ensina como um professor veio depois. Uma nova pergunta foi feita e no momento em que Elia levantava o indicador repetindo o gesto ritual do mestre, este, com uma lâmina, cortou-o. Logo de seguida, veio a pergunta: tens dores? E foi ao tentar levantar o dedo indicador e ao ver que tal não era possível, pois que este já não existia, que Elia de Mircea percebeu, de modo explicito, que aquele gesto não era seu e, por isso mesmo, não era digno. Acordou, mas com sangue. Olhou para a mão direita e viu que o seu dedo indicador fora mesmo cortado. Sonhos de tanta importância que atravessam a parede. Tornam-se reais, consequentes. Foi o dia da mudança."
Excerto de a história de elia de Mircea, uma das "Histórias Falsas" de Gonçalo M. Tavares (Ed. Campo da Literatura)
Em "A Moral do Vento, Ensaio sobre o corpo em Gonçalo M. Tavares" (Ed. Caminho), o autor do ensaio , Pedro Eiras, lembra Freud e a amputação feita castração no plano onírico. Se para Freud a amputação sonhada equivalia sempre a castração, ali onde era dedo dever-se-ia ler pénis. O dedo de Elia de Mircea (assim nomeado naquela história falsa, mascarando o nome verdadeiro do historiador, filósofo e teólogo romeno Mircea Eliade) teria sido cortado para que no seu lugar crescesse um órgão verdadeiro. O mestre será, assim, uma prótese da qual o discipulo, uma vez terminados os ensinamentos, se liberta.
Sobre escrever, e, em particular, sobre escrever poesia, li, algures no infinito virtual sem que tivesse memorizado o sítio, o conselho de um professor aos seus alunos. Aconselhava, peremptório, que se evitassem palavras como amor, tristeza, raiva, dor. No fundo, os lugares comuns. Explicava que a palavra amor, num bom poema, deve ser substituída por uma metáfora capaz e original, que evoque os cinco sentidos e os deixe viajar através das linhas. Viajar através das linhas, apercebo-me enquanto escrevo, terá qualquer coisa de metafórico, mas não lhe reputo capacidade e originalidade. Será difícil, concluía o professor, mesmo para quem trabalhe (com) as palavras há largos anos. Pensar que todos os poemas falam de amor é como pensar que todos os poetas estão mortos porque hoje já ninguém escreve poesia. Mas a poesia não está morta. Queria eu dizer com isto que tal como Elia de Mircea ficou sem o dedo para que pudesse filosofar de forma original, (ou pensar por si), também os poetas, antes de mais, se se querem capazes e originais, devem amputar, pelo menos inicialmente, a palavra amor, aqui feita prótese, e evitar o lugar comum de estarem mortos.
Cepticismos
Manter um ar sério enquanto nos fazem, solicita e simpaticamente, um mapa astral que não pedimos e que nos revela que a posição de Vénus denota algum apego ao conforto material, que Mercúrio poderá ser indício de futuros problemas intestinais e que tudo leva a crer que, em face da posição de Plutão, houve uma relação íntima com o poder numa vida passada.
E se um hippie logo pela manhã
Ar ensonado, cabelos meticulosamente despenteados, chinelos escolhidos a dedo para dedos cuidados, um saco de ar artesanal e velho comprado por certo numa loja trendy urbana, pulseiras de couro. Sem erros. Fashionably sensitive but to cool to care. Trajava de artefactos capitalistas. Para certos efeitos, os únicos hippies que me interessam são os falsificados.
Repulsa, caos e desobediência
A boa repulsa
David Cronenberg realizou a Mosca. Citação cinematográfica da Metamorfose de Kafka mas ainda mais nojento. Quando Geena Davis chega ao laboratório e Goldblum pavoneia a recém-adquirida natureza passeando pelo tecto, é possível evocar na perfeição a passagem da Metarmofose em que Gregor descobre que a sua deformidade lhe permite passear pelo tecto do quarto onde se viu forçado a esconder-se. Um filme nojento não é necessariamente mau. É um filme que, embora provoque um sentimento que se situa vulgarmente na categoria dos grosseiros, tendo o potencial para provocar repulsa, tem aí, enquanto exercício artistíco, a sua finalidade. As cicatrizes e ferros nas pernas de Patricia Arquette forçando a entrada num carro de luxo no "Crash" possuem a mesma qualidade repulsiva. Quando o personagem de Goldblum se vai desintegrando e deixando cair pedaços de orelha e dentes que colecciona como troféus da sua humanidade perdida, mesmo os estômagos mais insensíveis se ressentem. A repulsa nem sempre é má.
O bom caos
Jeff Goldblum tem um dom. O de imprimir a todas as banalidades em que se mete uma nota de credibilidade. Ainda que não tenha lido um único livro dito científico em toda a sua vida, tem uma expressão de credibilidade científica à mistura com uma irresístivel irreverência que o tornam ideal para encarnar o génio porreiraço. Simplisticamente, tem um ar inteligente. Qualquer coisa parecida com o cool geek dos Kings of Convenience. Facto é que as únicas cenas realmente suportáveis do Jurassic Park eram aquelas em que ele falava da teoria do caos e do efeito do bater das asas da borboleta em Pequim, e, em jeito de flirt, deixava as gotas de água escorregar pela mão da Laura Dern para lhe provar que elas tomariam sempre um sentido diferente mesmo que partindo do mesmo ponto. A imprevisibilidade como consequência das imperfeições. O caos nem sempre é mau.
David Cronenberg realizou a Mosca. Citação cinematográfica da Metamorfose de Kafka mas ainda mais nojento. Quando Geena Davis chega ao laboratório e Goldblum pavoneia a recém-adquirida natureza passeando pelo tecto, é possível evocar na perfeição a passagem da Metarmofose em que Gregor descobre que a sua deformidade lhe permite passear pelo tecto do quarto onde se viu forçado a esconder-se. Um filme nojento não é necessariamente mau. É um filme que, embora provoque um sentimento que se situa vulgarmente na categoria dos grosseiros, tendo o potencial para provocar repulsa, tem aí, enquanto exercício artistíco, a sua finalidade. As cicatrizes e ferros nas pernas de Patricia Arquette forçando a entrada num carro de luxo no "Crash" possuem a mesma qualidade repulsiva. Quando o personagem de Goldblum se vai desintegrando e deixando cair pedaços de orelha e dentes que colecciona como troféus da sua humanidade perdida, mesmo os estômagos mais insensíveis se ressentem. A repulsa nem sempre é má.
O bom caos
Jeff Goldblum tem um dom. O de imprimir a todas as banalidades em que se mete uma nota de credibilidade. Ainda que não tenha lido um único livro dito científico em toda a sua vida, tem uma expressão de credibilidade científica à mistura com uma irresístivel irreverência que o tornam ideal para encarnar o génio porreiraço. Simplisticamente, tem um ar inteligente. Qualquer coisa parecida com o cool geek dos Kings of Convenience. Facto é que as únicas cenas realmente suportáveis do Jurassic Park eram aquelas em que ele falava da teoria do caos e do efeito do bater das asas da borboleta em Pequim, e, em jeito de flirt, deixava as gotas de água escorregar pela mão da Laura Dern para lhe provar que elas tomariam sempre um sentido diferente mesmo que partindo do mesmo ponto. A imprevisibilidade como consequência das imperfeições. O caos nem sempre é mau.
A boa desobediência
Kafka pediu ao seu testamentário, pouco antes de morrer, que queimasse todos os seus manuscristos. Considerando que boa parte das suas obras são póstumas, beneficiou ele, e beneficiámos nós, da desobediência. A desobediência nem sempre é má.
Kafka pediu ao seu testamentário, pouco antes de morrer, que queimasse todos os seus manuscristos. Considerando que boa parte das suas obras são póstumas, beneficiou ele, e beneficiámos nós, da desobediência. A desobediência nem sempre é má.
Sinalética
A mesa da sala de reuniões era tão ampla que os papéis só chegavam a mãos alheias se atirados. O evoluir das negociações aferia-se pela menor ou maior vitalidade com que os papeluchos iam sendo atirados. Se num momento difícil, algum papel seria certamente bem atirado, com mão puxada atrás e tudo. Em alturas de concordância, far-se-ia um esforço para que o papel deslizasse, ainda que oblíquamente, pela mesa até ao seu destino. A dada altura, alguém levantar-se-ia, contornaria a mesa e depositaria o papel em frente à contraparte. A reunião estaria, então, terminada.
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