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Contabilidade
Vou contá-las:
a primeira, é a brontë. Uma emília do
campo, selvagem, solitária, fugindo pela
porta das traseiras sempre que o
heathcliff lhe assobiava aos ouvidos.
(Uma noite, ao fechar a janela do quarto,
na província, a mão dela agarrou-me a tempo - é
que o vento queria entrar em casa: o vento
norte, esse que faz voar reposteiros e folhas,
e fica a bater nos vidros se o
deixarmos lá fora);
a segunda é a dickinson;
mas conheço-a pior do que à outra. É
diferente um amor de adolescência, como o que
tive pela amante de heathcliff, do que paixões
de maturidade, em que razão e emoção coexistem em pratos
iguais da balança.
(Esta emily vestia-se de
branco, enquanto que a primeira gostava de roupas
escuras. É verdade que ambas tinham relações com
presbíteros; mas admito que fossem de natureza diferente
e que o freud não se aplique do mesmo modo
a uma ou a outra).
Sento-as, então, à mesma mesa, comigo
em frente. Digo-lhes: «Amo-vos. Tu, a inglesa,
amo-te como esse vento frio
ama os prados por onde corre, à noite, soltando
sombras e fantasmas; e a ti, a americana, amo-te
como o caruncho devora as madeiras das traves
e dos sótãos, com o rumor surdo que percorre
os desvios da eternidade.»
Ouço-as rirem-se de mim. O amor não é
isto, dizem-me. E deixo-as à conversa uma com a
outra, no seu esconderijo
de pantânos e cemitérios.
De Nuno Júdice, incluído na introdução de "Poemas e Cartas" Antologia de poemas e cartas de Emily Dickinson organizada por Nuno Vieira de Almeida e com tradução de Nuno Júdice. Ed. Cotovia.
Zach Galifianakis
Zach Galifianakis (o mesmo que participou no video de "not about love" da Fiona Apple) aqui num improvável e cómico manifesto "hillbily" ao serviço de Kanye West. Consta que Kanye West terá visto uma actuação de Zach G.(escreve-se mesmo com "ch") e que lhe terá pedido que fizesse alguma coisa com a música "can't tell me nothing", ao que o comediante terá acedido contanto que lhe fosse permitido gravar na sua quinta com total liberdade criativa. Hip hop meets hillbilies. Deu nisto.
Bloqueio
Gamba Adisa
of the Willis Avenue bridge
a beige Honda leaps the divider
like a steel gazelle inescapable
sleek leather boots on the pavement
rat-a-tat-tat best intentions
going down for the third time
stuck in the particular
You cannot make love to concrete
if you care about being
non-essential wrong or worn thin
if you fear ever becoming
diamonds or lard
you cannot make love to concrete
if you cannot pretend
concrete needs your loving
To make love to concrete
you need an indelible feather
white dresses before you are ten
a confirmation lace veil milk-large bones
and air raid drills in your nightmares
no stars till you go to the country
and one summer when you are twelve
Con Edison pulls the plug
on the street-corner moons Walpurgisnacht
and there are sudden new lights in the sky
stone chips that forget you need
to become a light rope a hammer
a repeatable bridge
garden-fresh broccoli two dozen dropped eggs
and a hint of you
caught up between my fingers
the lesson of a wooden beam
propped up on barrels
across a mined terrain
between forgiving too easily
and never giving at all.
"Making Love to Concrete", poema de Audre Lorde (1934-1992), que se descrevia como sendo "black lesbian feminist mother lover poet".
Rebound dates - pequena tese
[Husbands and wives - 1992]
Ou porque é que Judy Davis é uma actriz extraordinária ou ainda porque é que Judy Davis (cfr. Deconstructing Harry também de Woody Allen e Naked Lunch de David Cronenberg)Diane Keaton e Mia Farrow nada têm que ver com Scarlett Johanson.
you tube: o purista depressivo
No principio era a Mccall's
"1. Artigo principal sobre «a crescente calvície feminina, causada por excesso
de escova e de tinturas».
2. Um longo poema em tipo graúdo. Título: «Um Menino é um Menino».
3. Um conto a respeito de uma adolescente que não vai para a universidade
e rouba o namorado de outra moça, universitária e inteligente.
4. Um conto a respeito das sensações de um bebé que joga a mamadeira
fora do berço.
5. A primeira parte de uma matéria em que o duque de Windsor conta
«Como a Duquesa e eu vivemos agora. A influência da roupa sobre a minha
personalidade e vice-versa».
6. Um conto a respeito de uma garota de dezanove anos, enviada a uma
escola de aperfeiçoamento, a fim de aprender a ser bem feminina e perder
no ténis
7. A história de um casal em lua-de-mel, movimentando-se entre um quarto
e outro, depois de brigar por causa de jogo, em Las Vegas.
8. Um artigo ensinando «Como vencer um complexo de inferioridade».
9. Uma história chamada «Dia de Casamento».
10. História de mãe adolescente que aprende a dançar rock-and-roll.
11. Seis páginas de maravilhosas fotos de moda da parturiente.
12. Quatro páginas de matéria sobre «Como perder peso, segundo a receita
dos modelos».
13. Um artigo a respeito da demora em viagens aéreas.
14. Moldes para costurar em casa.
15. Moldes para fazer «Biombos — a Mágica Fascinante».
16. Um artigo intitulado «Método Enciclopédico para Encontrar um Segundo
Marido».
17. Um «churrasco bonanza», dedicado «ao grande Homem Americano, que,
boné branco na cabeça, garfo na mão, em terraço, varanda, pátio ou
quintal, em qualquer parte do país, observa a carne tostando no espeto.
E à sua mulher, sem cuja ajuda o churrasco jamais seria o indiscutível
sucesso que sempre é, verão após verão...»."
McCall's (julho de 1960):
Conteúdo da revista McCall's referido pelo revolucionário “The Feminine Mystique” de Betty Friedan (1963) [Tradução da edição brasileira Vozes Limitada – 1971]
poesia ou kassovitz revisitado
Dá-me lume.
Dá-me a cerveja.
Já sabes o costume.
Dá-me uma mortalha
Que eu enrolo isso.
Dá-me a pedra
E deixa-te disso.
Dá-me uns trocos
Para beber um café.
Vá lá.
Já sabes que estou farto de estar em pé.
E não me olhes com essa cara atravessada!
Dá-me o telefone da tua namorada!
Porquê? Porquê? Porquê?
Porque ela tem uma coisa para mim.
Quantas pedras de gelo
Queres no teu gin?
Da-me a tua vida,
da-me qualquer uma,
troco na boa na boinha
pelos meus tenis puma.
da-me um coraçao,
o meu foi roubado,
a cabra q o levou nem seker deixou recado.
da-me um pouco da tua classe
quem sabe talvez resultasse,
prometo q n a estrago, tasse?
da-me um bilhete para o cinema,
melhor,
da-me cara duma estrela de cinema
um sorriso pepsodente
de orelha a orelha
fofinho e inocente
tal e qual uma ovelha
da-me a tua imbecilidade
numa aspirina
e junta-lhes a tua integridade cabotina
axas q cabe tudo na mesma terrina
sabia-me mesmo bem agora uma gelatina
da-me um tiro
se isso te faz sentir melhor
da-me um lenço,
da ca eu limpo-te o suor
n consegues atirar
bem me keria parecer isso
da ca essa merda,
eu faço-te o serviço.
"o serviço", da weasel, 3º capítulo
John Malkovich as Himself
“Ir em frente. Dizer que é ir. Dizer que é em frente.” *
his story/ her story
Usurpação de poderes
Fashion statement
Coisas relevantes absolutamente irrelevantes no (excelente) concerto de LCD Soundsystem: os calções amarelos curtíssimos do baterista.
“Mil escolas de filosofia e ainda ninguém descobriu o segredo das ancas.” *
Há pessoas que falam muito alto. Não querem ser ouvidas. Querem ser vistas. Se alguém quiser ser ouvido diz alguma coisa interessante, não fala alto. As pessoas que falam muito alto são sempre vistas. Se estiveres de costas, enquanto alguém fala muito alto, não atentas no que ela diz, procuras uma oportunidade, para, discretamente, virares a cabeça e veres quem fala assim, tão mais alto que os outros. Há pessoas que falam muito baixo. Não querem ser vistas.
*Gonçalo M. Tavares