outras contabilidades

So the so-called "enigma of Emily Dickinson" is not an enigma to me at all. Everything we need to know about her is in those 1789 poems. They are a spiritual autobiography more comprehensive than any possible narrative. They are both the product and practice of a lifetime act of love on her part, if love can be a necessary action ("My business is to love," she declared. "My business is to sing."). Definition poems, observation-of-nature poems, arresting-moment-dramatized poems, declaration-after-experience poems, working-what-she-thinks-of-the-experience-in-the-poem poems, lyric cries, locked-up aphorisms, arguments and narratives, purposeful inconsistency, jazzing the placeholders, banging and angling language until it renders the otherwise inarticulate human feeling: the variety of the poetry she extracts from a single limited form—a liturgical form (the hymn stanza)—is astonishing. I would like to have a fraction of her focus: the most intense focus ever of any writer I know. She is a model of devotion to the practice of poetry. Writing poems for her was life-sustaining, even life-creating. It created the place in which she fully experienced her experience. What she made in her poems she used in her life. The process of writing and all it involved grew her soul. It was a spiritual discipline, the lifelong practice of a craft, and an entertainment.
Excerto de "My favorite poet: Emily Dickinson" , de Michael Ryan. A versão integral encontra-se disponível aqui.

Contabilidade

Quantas emílias houve na minha vida?

Vou contá-las:

a primeira, é a brontë. Uma emília do
campo, selvagem, solitária, fugindo pela
porta das traseiras sempre que o
heathcliff lhe assobiava aos ouvidos.

(Uma noite, ao fechar a janela do quarto,
na província, a mão dela agarrou-me a tempo - é
que o vento queria entrar em casa: o vento
norte, esse que faz voar reposteiros e folhas,
e fica a bater nos vidros se o
deixarmos lá fora);

a segunda é a dickinson;
mas conheço-a pior do que à outra. É
diferente um amor de adolescência, como o que
tive pela amante de heathcliff, do que paixões
de maturidade, em que razão e emoção coexistem em pratos
iguais da balança.

(Esta emily vestia-se de
branco, enquanto que a primeira gostava de roupas
escuras. É verdade que ambas tinham relações com
presbíteros; mas admito que fossem de natureza diferente
e que o freud não se aplique do mesmo modo
a uma ou a outra).

Sento-as, então, à mesma mesa, comigo
em frente. Digo-lhes: «Amo-vos. Tu, a inglesa,
amo-te como esse vento frio
ama os prados por onde corre, à noite, soltando
sombras e fantasmas; e a ti, a americana, amo-te
como o caruncho devora as madeiras das traves
e dos sótãos, com o rumor surdo que percorre
os desvios da eternidade.»

Ouço-as rirem-se de mim. O amor não é
isto, dizem-me. E deixo-as à conversa uma com a
outra, no seu esconderijo
de pantânos e cemitérios.

De Nuno Júdice, incluído na introdução de "Poemas e Cartas" Antologia de poemas e cartas de Emily Dickinson organizada por Nuno Vieira de Almeida e com tradução de Nuno Júdice. Ed. Cotovia.

Zach Galifianakis

Zach Galifianakis (o mesmo que participou no video de "not about love" da Fiona Apple) aqui num improvável e cómico manifesto "hillbily" ao serviço de Kanye West. Consta que Kanye West terá visto uma actuação de Zach G.(escreve-se mesmo com "ch") e que lhe terá pedido que fizesse alguma coisa com a música "can't tell me nothing", ao que o comediante terá acedido contanto que lhe fosse permitido gravar na sua quinta com total liberdade criativa. Hip hop meets hillbilies. Deu nisto.

Escreve. Escreve. É uma ordem. Toda a vontade do mundo, querer não é poder, quem diz isso é idiota ou nunca quis nada que não fosse imediato. Sofres de um problema com a autoridade. Desautorizas até a tua vontade. O curioso é que o filme sobre quem não consegue escrever foi escrito por quem não conseguia escrever. Catarse. Podes sempre escrever sobre o facto de não conseguires escrever. Gore Vidal, o americano anti-americano, autor de livros longuíssimos e no limiar do maçador, prolixo e não parecendo sofrer de bloqueios, disse: Write something even if it’s just a suicide note. Escreve livros longuíssimos e diz coisas destas.

Bloqueio

To begin... To begin... How to start? I'm hungry. I should get coffee. Coffee would help me think. Maybe I should write something first, then reward myself with coffee. Coffee and a muffin. So I need to establish the themes. Maybe a banana nut. That's a good muffin.
Assim bloqueava Charlie Kaufman (Nicolas Cage), no filme Adaptation, argumento de Charlie Kaufman.

Gamba Adisa

An upright abutment in the mouth
of the Willis Avenue bridge
a beige Honda leaps the divider
like a steel gazelle inescapable
sleek leather boots on the pavement
rat-a-tat-tat best intentions
going down for the third time
stuck in the particular

You cannot make love to concrete
if you care about being
non-essential wrong or worn thin
if you fear ever becoming
diamonds or lard
you cannot make love to concrete
if you cannot pretend
concrete needs your loving

To make love to concrete
you need an indelible feather
white dresses before you are ten
a confirmation lace veil milk-large bones
and air raid drills in your nightmares
no stars till you go to the country
and one summer when you are twelve
Con Edison pulls the plug
on the street-corner moons Walpurgisnacht
and there are sudden new lights in the sky
stone chips that forget you need
to become a light rope a hammer
a repeatable bridge
garden-fresh broccoli two dozen dropped eggs
and a hint of you
caught up between my fingers
the lesson of a wooden beam
propped up on barrels
across a mined terrain

between forgiving too easily
and never giving at all.

"Making Love to Concrete", poema de Audre Lorde (1934-1992), que se descrevia como sendo "black lesbian feminist mother lover poet".

Rebound dates - pequena tese

[Husbands and wives - 1992]
Ou porque é que Judy Davis é uma actriz extraordinária ou ainda porque é que Judy Davis (cfr. Deconstructing Harry também de Woody Allen e Naked Lunch de David Cronenberg)Diane Keaton e Mia Farrow nada têm que ver com Scarlett Johanson.

you tube: o purista depressivo

De um comentário: "if you can't figure out how to harmonize sound and image you must be dead inside."

No principio era a Mccall's

"1. Artigo principal sobre «a crescente calvície feminina, causada por excesso
de escova e de tinturas».
2. Um longo poema em tipo graúdo. Título: «Um Menino é um Menino».
3. Um conto a respeito de uma adolescente que não vai para a universidade
e rouba o namorado de outra moça, universitária e inteligente.
4. Um conto a respeito das sensações de um bebé que joga a mamadeira
fora do berço.
5. A primeira parte de uma matéria em que o duque de Windsor conta
«Como a Duquesa e eu vivemos agora. A influência da roupa sobre a minha
personalidade e vice-versa».
6. Um conto a respeito de uma garota de dezanove anos, enviada a uma
escola de aperfeiçoamento, a fim de aprender a ser bem feminina e perder
no ténis
7. A história de um casal em lua-de-mel, movimentando-se entre um quarto
e outro, depois de brigar por causa de jogo, em Las Vegas.
8. Um artigo ensinando «Como vencer um complexo de inferioridade».
9. Uma história chamada «Dia de Casamento».
10. História de mãe adolescente que aprende a dançar rock-and-roll.
11. Seis páginas de maravilhosas fotos de moda da parturiente.
12. Quatro páginas de matéria sobre «Como perder peso, segundo a receita
dos modelos».
13. Um artigo a respeito da demora em viagens aéreas.
14. Moldes para costurar em casa.
15. Moldes para fazer «Biombos — a Mágica Fascinante».
16. Um artigo intitulado «Método Enciclopédico para Encontrar um Segundo
Marido».
17. Um «churrasco bonanza», dedicado «ao grande Homem Americano, que,
boné branco na cabeça, garfo na mão, em terraço, varanda, pátio ou
quintal, em qualquer parte do país, observa a carne tostando no espeto.
E à sua mulher, sem cuja ajuda o churrasco jamais seria o indiscutível
sucesso que sempre é, verão após verão...»."

McCall's (julho de 1960):

Conteúdo da revista McCall's referido pelo revolucionário “The Feminine Mystique” de Betty Friedan (1963) [Tradução da edição brasileira Vozes Limitada – 1971]

poesia ou kassovitz revisitado

Dá-me um cigarro,
Dá-me lume.
Dá-me a cerveja.
Já sabes o costume.
Dá-me uma mortalha
Que eu enrolo isso.
Dá-me a pedra
E deixa-te disso.
Dá-me uns trocos
Para beber um café.
Vá lá.
Já sabes que estou farto de estar em pé.
E não me olhes com essa cara atravessada!
Dá-me o telefone da tua namorada!
Porquê? Porquê? Porquê?
Porque ela tem uma coisa para mim.
Quantas pedras de gelo
Queres no teu gin?
Da-me a tua vida,
da-me qualquer uma,
troco na boa na boinha
pelos meus tenis puma.
da-me um coraçao,
o meu foi roubado,
a cabra q o levou nem seker deixou recado.
da-me um pouco da tua classe
quem sabe talvez resultasse,
prometo q n a estrago, tasse?
da-me um bilhete para o cinema,
melhor,
da-me cara duma estrela de cinema
um sorriso pepsodente
de orelha a orelha
fofinho e inocente
tal e qual uma ovelha
da-me a tua imbecilidade
numa aspirina
e junta-lhes a tua integridade cabotina
axas q cabe tudo na mesma terrina
sabia-me mesmo bem agora uma gelatina
da-me um tiro
se isso te faz sentir melhor
da-me um lenço,
da ca eu limpo-te o suor
n consegues atirar
bem me keria parecer isso
da ca essa merda,
eu faço-te o serviço.

"o serviço", da weasel, 3º capítulo

John Malkovich as Himself

Há um edifício de escritórios em Lisboa em que a saída é no oitavo andar. Há um declive, uma discrepância no solo sobre o qual foi construído que produz a anómala circunstância de se sair sempre no oitavo andar. Sair no oitavo andar parece um pouco ousado. Disse-lhes, uma vez, que o escritório deles me faz lembrar o filme que se passa na cabeça de alguém que é actor no filme e fora do filme. O absurdo a que pode chegar o ego quando se é actor, extraordinário, e se entra num filme em cujos créditos se lê John Malkovich as Himself, não é de todo desprezível. Há egos que não cabem no mundo, e nunca apareceram num filme “as themselves”. Se alguém quisesse entrar na minha cabeça eu diria que não. Por isso é que as pessoas que entram na minha cabeça o fazem sem pedir autorização. Quando entro na cabeça de alguém entro de mansinho, não peço porque não gosto de ouvir não. Faço esse tipo. Ninguém me pode dizer que não.

“Ir em frente. Dizer que é ir. Dizer que é em frente.” *

Acordar assim, sufocado, e atribuir esse ardor de alma aos vinte e oito graus matinais de temperatura é hipocrisia. Bem sabes que sufocas por dentro. O tempo não pode ser o culpado de tudo. Se chove, dizes-te de mau humor porque as calças e os sapatos chegaram molhados à porta do escritório, quando se te enruga a testa mesmo enquanto dormes, quente, debaixo dos cobertores. Se sais para a rua, e não consegues respirar, não te desculpes com o calor por teres ignorado ostensivamente, como todos os dias, o homem que te pede sempre dinheiro no mesmo sítio e à mesma hora. E se, por uma vez, parasses? Não te desculpes com o calor, com o cansaço à saída da praia, com o trânsito, quando presenteias a criança com um tabefe por ela ter tropeçado. Se ela cai e se magoa, porque lhe bates? Quem te vê, quase pensa que lhe bates por existir. O tempo não pode ser o culpado de tudo. Já estavas assim antes.
*“O Inominável”, Samuel Beckett

his story/ her story

Herstory is a term which originated as a neologism. In feminist discourse, it is used to refer to history ("his story") from a feminist perspective, emphasizing the role of women or told from a woman's point of view. The word can be considered an example of folk etymology, a linguistic term for the modification of a word or phrase based on an analogy or a false etymology which is popularly believed to be true. In this case, the word history (from the Ancient Greek ιστορία, or istoria, meaning "a learning or knowing by inquiry") is etymologically unrelated to the possessive pronoun his.
(fonte: wikipedia)

Herstory

Mulheres no cinema, via Sound+vision.

Indulgências

Permitir-me um entusiasmo adolescente na presença do Paul Banks.

Brooklyn rules

Tv on the radio. Daqui a uma hora.

Usurpação de poderes

E leu na nota número 10, a cento e vinte páginas do final do livro, que era curioso que o destino de uma figura histórica, citada pelo autor, se confundisse com aquele que era o destino de uma das personagens principais: a morte. Suspensa que estava nas elucubrações daquela que era a heroína indiscutível e, desde o início, a sua Afinidade Electiva, abandonou, revoltada com as indiscrições do tradutor e autor da nota número 10, o livro a pior sorte na prateleira. Alguém escreveu que o trabalho dos tradutores se assemelha ao das mulheres que fazem tapetes de Arraiolos que, cuidadosas, olham para o avesso do tapete e lhe descobrem as imperfeições que a parte visível não revela. A tradução será assim, coisa cuidada e atenta mesmo ao avesso por natureza sempre a salvo dos olhares. Ora, a cento e vinte páginas do final do livro quis o autor que a heroína ainda respirasse e suspirasse pelas suas afinidades electivas. O tradutor, extrapolando poderes, ceifou-a prematuramente. Se traduções há que são infelizes, aquelas que tiram a quem lê a esperança num final feliz, assim a negrito numa qualquer nota número 10, são simplesmente cruéis.

Fashion statement

Coisas relevantes absolutamente irrelevantes no (excelente) concerto de LCD Soundsystem: os calções amarelos curtíssimos do baterista.

“Mil escolas de filosofia e ainda ninguém descobriu o segredo das ancas.” *

Há pessoas que não dançam em festas. Não conhecem o segredo das ancas. Aquele. O da dança. Não o outro. Não são a mesma coisa? Se não estiveres a dançar enquanto todos dançam, repararás, quando diante de um grupo de medianos e ocasionais dançarinos, que cada um se mexe a um ritmo diferente. Dificilmente o ritmo da música. Alguns procuram nos outros o ritmo, buscam um movimento que possam copiar sem acrobacias que lhes ponham em risco os membros e a face, ou tentam acompanhar, quando a pares, o parceiro que olha para o vazio. Olha-me nos olhos enquanto danças. Outros mexem-se daquela forma que dificilmente se assemelhará a qualquer movimento catalogável num tipo de dança, e ocupam o solidário lugar na pista reservado aos que apenas fingem dançar. Às vezes, ninguém dança, realmente.

Há pessoas que falam muito alto. Não querem ser ouvidas. Querem ser vistas. Se alguém quiser ser ouvido diz alguma coisa interessante, não fala alto. As pessoas que falam muito alto são sempre vistas. Se estiveres de costas, enquanto alguém fala muito alto, não atentas no que ela diz, procuras uma oportunidade, para, discretamente, virares a cabeça e veres quem fala assim, tão mais alto que os outros. Há pessoas que falam muito baixo. Não querem ser vistas.

*Gonçalo M. Tavares

Ruas sem saída